"Já choramos muito, muitos se perderam no caminho. Mesmo assim, não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer sol de primavera... Quando entrar setembro..." (Beto Guedes)
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sábado, 14 de março de 2020

Como curar um fanático


Pra começo de conversa é necessário dizer que o fanatismo não é uma espécie de loucura, ele tem uma estrutura própria: é burrice somada à canalhice. O fanático é burro porque aceita incondicionalmente o que lhe aparece sem questionar; não opera nele nenhum corte ou atravessamento. É canalha porque vê, mas não olha; ouve, mas não escuta; encontra e reconhece, mas não quer saber sobre isso. O fanático é um cínico; não tem nenhum compromisso com a verdade e não se afeta pelo discurso do outro. O fundamentalismo que sustenta o fanático é a rejeição da filosofia e o avesso do diálogo.

O fanático possui uma fragilidade simbólica. Ele está, na maior parte do tempo, assujeitado a um discurso que não tem compromisso algum com algo que lhe seja singular, que lhe atravesse, que o faça deslizar de suas certezas. O fanático possui um discurso desabitado de eu – do eu inconsciente, dividido – está preso apenas ao campo do imaginário, que é frágil e, por isso, precisa ser refeito o tempo todo. O eu do fanático se sustenta por meio de uma imagem que ele cria para si e que precisa manter incólume. E ele a constrói a partir de um discurso que considera o “politicamente correto” ou “moralmente correto” e no qual se mantem preso; discurso fundamentalista por excelência.

Por outro lado, este discurso que o fanático reproduz como sendo seu, não tem nada que lhe seja singular, trata apenas de uma espécie de fé ou crença inabalável que ele reproduz sem questionar. Mas, não sejamos ingênuos, não é apenas o discurso religioso que pode se encaixar nessa categoria discursiva. Teorias das mais diversas, dietas, gostos musicais, um time de futebol, uma bandeira política; tudo pode servir para alimentar o fundamentalismo do fanático. Basta que este faça uso de tal discurso para obter uma resposta unívoca e definitiva para qualquer pergunta que faça. Pois, o fanático, não busca um discurso para transitar no mundo, mas para lhe servir de manual de como agir e se portar. Na medida em que lhe faltam recursos simbólicos para buscar um modo próprio de se arranjar no laço social, o fanático precisa seguir verdades que já estejam dadas, às quais ele precisa apenas se submeter e obedecer. O que o fanático quer é se tornar o servo ideal de uma teoria.
Li recentemente o livro: Como curar um fanático? de Amós Oz. Oz parte do princípio que o fanatismo é uma semente que está em todos nós. É muito mais velho que todas as ideologias e religiões; um componente intrínseco à natureza humana. A questão é apenas alimentá-lo ou não, e isso pode acontecer por várias vias. Todavia, é obvio que não podemos comparar um vegano fanático com um terrorista fanático. Existem gradações de mal que cada um desses pode causar, e isso faz toda a diferença. Mas, o importante é atentarmos para o fato de que o fanatismo pode brotar a qualquer momento em nós, e é contagioso, exatamente pela sua simplicidade. Oz supõe que o crescimento do fanatismo pode ter relação com o fato de que o mundo tenha se tornado demasiadamente complexo. E quanto mais complexas as questões se tornam, mais as pessoas anseiam por respostas simples.
É interessante que o maior problema do fanático seja sua tendência ao altruísmo, já que ele parece estar mais interessado em você do que nele próprio. O fanático quer, sobretudo, mudar você porque, afinal, é ele quem sabe o que é melhor pra você. Como diria Amos Oz: “Ele quer salvar sua alma, quer te redimir, quer te livrar do pecado, do erro, de fumar, de sua fé ou de sua falta de fé, quer melhorar seus hábitos alimentares, ou te curar da bebida ou de sua preferência na hora de votar. O fanático se importa muito com você, ele está sempre pulando em seu pescoço porque te ama de verdade, ou então está em sua garganta caso demonstre ser irrecuperável. E seja qual for o caso, falando topograficamente, pular em seu pescoço e estar em sua garganta é quase o mesmo gesto. De um modo ou de outro, o fanático está mais interessado em você do que nele mesmo, pela muito simples razão de que o fanático tem muito pouco de “ele mesmo”, ou nenhum “ele mesmo”.”
Mas o que causaria tal insistência de conversão? É que quando um fanático consegue converter o outro, ele conquista a garantia de que seu discurso seja validado. Ao enlaçar o outro, o fanático atualiza sua própria imagem e reforça sua paixão por si. O objetivo é transformar o outro em si mesmo, assim, apaga-se todas as diferenças e tudo se mantém igual. De algum modo, o que o fanático deseja é destruir o outro que insiste em se manter como outro; ou tentando transforma-lo no mesmo ou apagando-o. O fanático precisa apagar toda a diferença para que seu eu frágil se reforce entre seus iguais e, assim, sobreviva.
Sobretudo, o fanático é um cínico. Afinal, ele sabe que, ainda que seu discurso não possua nenhum compromisso com a verdade, este jamais poderá ser desconstruído ou questionado, afinal, isso significaria sua própria derrocada. Se o eu singular do fanático é frágil e depende da teoria fundamental que ele abraça, desmontar tal teoria é fazê-lo experimentar sua própria morte. É por isso que o fanático não fala, ele vocifera. Vocifera porque precisa a todo custo sustentar sua teoria, mesmo que ela seja uma mentira. A outra opção seria sucumbir com ela. Oz exemplifica: “Conheço antitabagistas que queimariam você vivo por acender um cigarro perto deles! Conheço vegetarianos que comeriam você vivo por comer carne! Conheço pacifistas, alguns deles meus colegas no Movimento Israelense pela Paz, que gostariam de dar um tiro na minha cabeça só porque eu defendo uma estratégia um pouco diferente de como chegar à paz com os palestinos.”
Enfim, há fanáticos por todos lados e de todos os tipos e modos. Concordo com Amos Oz que o maior embate global de nossa época é a luta universal contra todos os tipos de fanatismos e fundamentalismos, ainda que seja apenas para minimizar seus danos ou evitar sua propagação. E alguns antídotos para esta luta são, segundo este autor: o humor, a capacidade de suportar situações onde não há nenhuma certeza e a capacidade de desfrutar da diversidade. O humor é aquilo que nos faz rir de nós mesmos, ou seja, ele relativiza nosso lugar e nossas teorias, pois nos permite que olhemos para nós do modo como o outro nos vê. Quanto mais alguém é capaz de rir de si mesmo e de suas teorias, mais ele está vacinado contra o fanatismo. Outro antídoto é abrir-se para as incertezas, suportar o que está em aberto, o que não tem resposta. Viajar para além de si mesmo é também um exercício eficaz contra o fanatismo. É a capacidade de se imaginar no lugar do outro, mesmo no momento que acreditamos estar totalmente certos. É se deixar afetar pelo outro, de algum modo.
Depois de toda esta reflexão, não pude deixar de pensar no momento político atual do Brasil. De certo modo compreendi porque tem sido tão difícil sustentar o debate. É perceptível que a grande maioria se encontra aprisionada em suas certezas e crenças; não importa a verdade, não importam os fatos, não importa se o outro que está em jogo hoje pode se tornar o eu em jogo de amanhã... Nada disso importa. O que importa é que cada um se mantenha nas suas bolhas de certeza, para sustentar a própria imagem. O que importa é que tal certeza não se abale nunca, mesmo que eu saiba que estou sustentando uma farsa, já que a outra opção seria admitir estar errado e, consequentemente, ter que lidar com a morte daquilo que sou. Tais bolhas de certeza funcionam como as bolhas das redes sociais, que formamos e reforçamos cada vez que bloqueamos ou excluímos quem pensa diferente de nós.
Nesse sentido, é fundamental manter o diálogo, o humor e a diferença, pelo menos para evitar que o fanatismo se propague ainda mais ou nos contamine. É claro que não é possível transigir com genocidas, chauvinistas, terroristas e outros tipos, mas não se pode ignora-los ou se apartar deles, é preciso reconhece-los, confronta-los e combatê-los. Pois, caso os não fanáticos declinem desta tarefa, estarão apenas poupando o trabalho dos fanáticos em silenciar o que diverge deles, reforçar suas bolhas e angariar mais adeptos/servos.
Ao escrever este parágrafo me peguei pensando se eu mesma não estou aqui a alimentar o germe do fanatismo, me assegurando da certeza de não ser uma fanática. Mas a dúvida já me deu um consolo, e rir do meu mal-estar com o parágrafo me aliviou mais um pouco, mas não o suficiente, confesso.
Por fim, o que sustento é que mantenhamos uma arena de combate e debate possível. E uma que suporte a ideia de que o laço sempre está pronto para se desfazer, mas pode ser refeito logo adiante e desfeito novamente. E é saudável e desejável que seja assim. Um laço não pode pretender capturar o outro para sempre, porque o outro também quer estar em outra parte e de outro modo diferente do que eu penso ou quero.
Na fragilidade do laço mora todo mal-estar do mundo, mas também toda a possibilidade daquilo que no senso comum chamamos amor, que é a capacidade de enlaçar o outro sem prende-lo, ou seja, suportando a sua alteridade e mais ainda, dialogando com ela.


Fonte: Rita Almeida via facebook

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Ao longo da vida, somos ensinados a ganhar

Ao longo da vida, somos ensinados a ganhar
Ganhar nota 10
O campeonato
Presente de aniversário
O coração de quem amamos
Mais um gatinho
Ou aquele jeans que vimos na vitrine

E assim passamos a existência
Acreditando que viver seja acumular sucessos, jeans e amores
Ficamos felizes quando abrimos nosso baú e ele está cheio
Nem que seja de lembranças
Tecidos rotos
Ou papéis amarelados

Ao que parece somos as coisas e pessoas que juntamos ao nosso redor
O dinheiro que acumulamos na nossa conta bancária
Os certificados que pregamos na nossa parede
As fotografias catalogadas
E todos os amigos e amores que tivemos o privilégio de abraçar

Mas olho agora para a estante da minha sala
Reparo um souvenir que trouxe de uma viagem
E penso:
Por que escolhi trazer este e não outro?
E me pego pensando sobre todos os outros objetos que escolhi perder para trazer apenas este
A ponto de nem me lembrar mais quais eram aqueles

Tenho entendido que a experiência singular de cada vida
Não se faz com aquilo que ganhamos
Somos muito mais aquilo que perdemos pelo caminho
É aquilo que não escolhemos, afinal, que vai dizer do que somos feitos

Nos ensinaram que na vida vale o que conquistamos
Mas experimentar a vida é perder, no final das contas
É abdicar dos muitos caminhos que surgem numa certa encruzilhada
Para escolher este que se está agora
E as coisas que estão no nosso baú só dizem de nós, porque nos remetem a todas as outras que não estão lá

Enfim, há um tanto de pequenas mortes necessárias para experimentar uma vida
Porque somos, sobretudo, aquilo que tivemos a coragem de deixar para trás


Rita Almeida

sábado, 23 de setembro de 2017

O que querem os fanáticos fundamentalistas? Por que dialogar com eles?


por Rita Almeida

Pra começo de conversa é necessário dizer que o fanatismo não é uma espécie de loucura, ele tem uma estrutura própria: é burrice somada à canalhice. O fanático é burro porque aceita incondicionalmente o que lhe aparece sem questionar; não opera nele nenhum corte ou atravessamento. É canalha porque vê, mas não olha; ouve, mas não escuta; encontra e reconhece, mas não quer saber sobre isso. O fanático é um cínico; não tem nenhum compromisso com a verdade e não se afeta pelo discurso do outro. O fundamentalismo que sustenta o fanático é a rejeição da filosofia e o avesso do diálogo.
O fanático possui uma fragilidade simbólica. Ele está, na maior parte do tempo, assujeitado a um discurso que não tem compromisso algum com algo que lhe seja singular, que lhe atravesse, que o faça deslizar de suas certezas. O fanático possui um discurso desabitado de eu – do eu inconsciente, dividido – está preso apenas ao campo do imaginário, que é frágil e, por isso, precisa ser refeito o tempo todo. O eu do fanático se sustenta por meio de uma imagem que ele cria para si e que precisa manter incólume. E ele a constrói a partir de um discurso que considera o “politicamente correto” ou “moralmente correto” e no qual se mantem preso; discurso fundamentalista por excelência.
Por outro lado, este discurso que o fanático reproduz como sendo seu, não tem nada que lhe seja singular, trata apenas de uma espécie de fé ou crença inabalável que ele reproduz sem questionar. Mas, não sejamos ingênuos, não é apenas o discurso religioso que pode se encaixar nessa categoria discursiva. Teorias das mais diversas, dietas, gostos musicais, um time de futebol, uma bandeira política; tudo pode servir para alimentar o fundamentalismo do fanático. Basta que este faça uso de tal discurso para obter uma resposta unívoca e definitiva para qualquer pergunta que faça. Pois, o fanático, não busca um discurso para transitar no mundo, mas para lhe servir de manual de como agir e se portar. Na medida em que lhe faltam recursos simbólicos para buscar um modo próprio de se arranjar no laço social, o fanático precisa seguir verdades que já estejam dadas, às quais ele precisa apenas se submeter e obedecer. O que o fanático quer é se tornar o servo ideal de uma teoria.
Li recentemente o livro: Como curar um fanático? de Amós Oz. Oz parte do princípio que o fanatismo é uma semente que está em todos nós. É muito mais velho que todas as ideologias e religiões; um componente intrínseco à natureza humana. A questão é apenas alimentá-lo ou não, e isso pode acontecer por várias vias. Todavia, é obvio que não podemos comparar um vegano fanático com um terrorista fanático. Existem gradações de mal que cada um desses pode causar, e isso faz toda a diferença. Mas, o importante é atentarmos para o fato de que o fanatismo pode brotar a qualquer momento em nós, e é contagioso, exatamente pela sua simplicidade. Oz supõe que o crescimento do fanatismo pode ter relação com o fato de que o mundo tenha se tornado demasiadamente complexo. E quanto mais complexas as questões se tornam, mais as pessoas anseiam por respostas simples.
É interessante que o maior problema do fanático seja sua tendência ao altruísmo, já que ele parece estar mais interessado em você do que nele próprio. O fanático quer, sobretudo, mudar você porque, afinal, é ele quem sabe o que é melhor pra você. Como diria Amos Oz: “Ele quer salvar sua alma, quer te redimir, quer te livrar do pecado, do erro, de fumar, de sua fé ou de sua falta de fé, quer melhorar seus hábitos alimentares, ou te curar da bebida ou de sua preferência na hora de votar. O fanático se importa muito com você, ele está sempre pulando em seu pescoço porque te ama de verdade, ou então está em sua garganta caso demonstre ser irrecuperável. E seja qual for o caso, falando topograficamente, pular em seu pescoço e estar em sua garganta é quase o mesmo gesto. De um modo ou de outro, o fanático está mais interessado em você do que nele mesmo, pela muito simples razão de que o fanático tem muito pouco de “ele mesmo”, ou nenhum “ele mesmo”.”
Mas o que causaria tal insistência de conversão? É que quando um fanático consegue converter o outro, ele conquista a garantia de que seu discurso seja validado. Ao enlaçar o outro, o fanático atualiza sua própria imagem e reforça sua paixão por si. O objetivo é transformar o outro em si mesmo, assim, apaga-se todas as diferenças e tudo se mantém igual. De algum modo, o que o fanático deseja é destruir o outro que insiste em se manter como outro; ou tentando transforma-lo no mesmo ou apagando-o. O fanático precisa apagar toda a diferença para que seu eu frágil se reforce entre seus iguais e, assim, sobreviva.
Sobretudo, o fanático é um cínico. Afinal, ele sabe que, ainda que seu discurso não possua nenhum compromisso com a verdade, este jamais poderá ser desconstruído ou questionado, afinal, isso significaria sua própria derrocada. Se o eu singular do fanático é frágil e depende da teoria fundamental que ele abraça, desmontar tal teoria é fazê-lo experimentar sua própria morte. É por isso que o fanático não fala, ele vocifera. Vocifera porque precisa a todo custo sustentar sua teoria, mesmo que ela seja uma mentira. A outra opção seria sucumbir com ela. Oz exemplifica: “Conheço antitabagistas que queimariam você vivo por acender um cigarro perto deles! Conheço vegetarianos que comeriam você vivo por comer carne! Conheço pacifistas, alguns deles meus colegas no Movimento Israelense pela Paz, que gostariam de dar um tiro na minha cabeça só porque eu defendo uma estratégia um pouco diferente de como chegar à paz com os palestinos.”
Enfim, há fanáticos por todos lados e de todos os tipos e modos. Concordo com Amos Oz que o maior embate global de nossa época é a luta universal contra todos os tipos de fanatismos e fundamentalismos, ainda que seja apenas para minimizar seus danos ou evitar sua propagação. E alguns antídotos para esta luta são, segundo este autor: o humor, a capacidade de suportar situações onde não há nenhuma certeza e a capacidade de desfrutar da diversidade. O humor é aquilo que nos faz rir de nós mesmos, ou seja, ele relativiza nosso lugar e nossas teorias, pois nos permite que olhemos para nós do modo como o outro nos vê. Quanto mais alguém é capaz de rir de si mesmo e de suas teorias, mais ele está vacinado contra o fanatismo. Outro antídoto é abrir-se para as incertezas, suportar o que está em aberto, o que não tem resposta. Viajar para além de si mesmo é também um exercício eficaz contra o fanatismo. É a capacidade de se imaginar no lugar do outro, mesmo no momento que acreditamos estar totalmente certos. É se deixar afetar pelo outro, de algum modo.
Depois de toda esta reflexão, não pude deixar de pensar no momento político atual do Brasil. De certo modo compreendi porque tem sido tão difícil sustentar o debate. É perceptível que a grande maioria se encontra aprisionada em suas certezas e crenças; não importa a verdade, não importam os fatos, não importa se o outro que está em jogo hoje pode se tornar o eu em jogo de amanhã... Nada disso importa. O que importa é que cada um se mantenha nas suas bolhas de certeza, para sustentar a própria imagem. O que importa é que tal certeza não se abale nunca, mesmo que eu saiba que estou sustentando uma farsa, já que a outra opção seria admitir estar errado e, consequentemente, ter que lidar com a morte daquilo que sou. Tais bolhas de certeza funcionam como as bolhas das redes sociais, que formamos e reforçamos cada vez que bloqueamos ou excluímos quem pensa diferente de nós.
Nesse sentido, é fundamental manter o diálogo, o humor e a diferença, pelo menos para evitar que o fanatismo se propague ainda mais ou nos contamine. É claro que não é possível transigir com genocidas, chauvinistas, terroristas e outros tipos, mas não se pode ignora-los ou se apartar deles, é preciso reconhece-los, confronta-los e combatê-los. Pois, caso os não fanáticos declinem desta tarefa, estarão apenas poupando o trabalho dos fanáticos em silenciar o que diverge deles, reforçar suas bolhas e angariar mais adeptos/servos.
Ao escrever este parágrafo me peguei pensando se eu mesma não estou aqui a alimentar o germe do fanatismo, me assegurando da certeza de não ser uma fanática. Mas a dúvida já me deu um consolo, e rir do meu mal-estar com o parágrafo me aliviou mais um pouco, mas não o suficiente, confesso.
Por fim, o que sustento é que mantenhamos uma arena de combate e debate possível. E uma que suporte a ideia de que o laço sempre está pronto para se desfazer, mas pode ser refeito logo adiante e desfeito novamente. E é saudável e desejável que seja assim. Um laço não pode pretender capturar o outro para sempre, porque o outro também quer estar em outra parte e de outro modo diferente do que eu penso ou quero.
Na fragilidade do laço mora todo mal-estar do mundo, mas também toda a possibilidade daquilo que no senso comum chamamos amor, que é a capacidade de enlaçar o outro sem prende-lo, ou seja, suportando a sua alteridade e mais ainda, dialogando com ela.

Rita Almeida - Psicologa/psicanalista. Doutoranda em educação pela UFJF. Trabalhandora da Rede de Saude Mental do SUS

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O desejo como antídoto para o querer na sociedade de consumo

reprodução



Há quem pense que querer e desejar sejam a mesma coisa. Não são, e utilizar a tesoura do desejo seria a verdadeira revolução.



Rita Almeida


Há quem pense que querer e desejar sejam a mesma coisa. Não são! Ao menos, não para a psicanálise. 
 
O querer é uma enorme prateleira, o desejo uma tesoura. A operação matemática do querer é a soma e do desejo a divisão, nunca exata, sempre com resto. O querer é cumulativo, já o desejo, envolve escolha e perda.
 
A operação que rege e sustenta o sistema capitalista e, portanto, domina a forma de estarmos no mundo hoje em dia é o querer. Ao capitalismo interessa o acumulo de coisas; prateleiras cheias para vender, prateleiras cheias para comprar. Queremos mais um livro, mais um perfume e mais um sapato, não importa quantos já temos. Queremos mais uma especialização, mais uma viagem e mais 20 canais de TV, não importa que sentido tenham feito em nossa vida. Queremos mais um carro, mais um imóvel e mais bens, não importa o que isso represente para a coletividade humana e a sustentabilidade do nosso planeta. 
 
Jacques Lacan ao construir sua teoria dos discursos faz menção ao que ele chama de Discurso Capitalista, que seria uma mutação pervertida do Discurso do Mestre. Enquanto o Discurso do Mestre se baseia na relação do senhor e do escravo – resgatado da dialética hegeliana – o Discurso Capitalista se dá pelo eclipse da relação entre os sujeitos. Em tal discurso, o sujeito não se relaciona com um outro, se relaciona apenas com os objetos–mercadoria. Tudo vira objeto a ser consumido, até mesmo os próprios sujeitos. 
 
O agente do Discurso Capitalista é o consumidor, seu interesse é pelo consumo. Como diria Viviane Forrester, na sociedade atual consumir é nosso último recurso, nossa última utilidade. Somos clientes necessários à sustentação do modelo capitalista. 
 
Mas consumidor é aquele sujeito que está sempre aquém, sempre em déficit, pois sempre haverá uma bugiganga, uma tecnologia, um bem, um saber e um modelo mais novo que ele ainda não conseguiu adquirir, portanto, o verbo que ele conjuga é o querer. Entretanto, o engano do consumidor não é se considerar incompleto, já que a incompletude é uma realidade irremediável para todos nós, mas sim acreditar que irá alcançar a completude por meio da aquisição de coisas; das coisas que ainda não tem. 
 
Nesse sentido, o querer é uma armadilha, pois por mais que o sujeito adquira coisas estará sempre se sentindo em falta, e ao invés de aceitá-la, seu movimento é continuar a buscar no consumo, coisas que criem uma falsa sensação de completude. O querer é sempre mais, sempre sem limites. O querer funciona como negação da castração. No excesso de querer o sujeito se perde, pois perde a capacidade de fazer escolhas, e com isso, seu potencial singular. 
 
Mas, e o desejo? 
 
A psicanálise se sustenta sobre a ética do desejo. Ao contrário do querer, em que o sujeito quer tudo até que sua prateleira fique completa, o desejo implica em escolhas, portanto, em perdas. O desejo é uma tesoura, sendo assim desejar implica em fazer opções. Ou isso Ou aquilo, diria Cecília Meireles.
 
Ou isto ou aquilo
 
Ou se tem chuva e não se tem sol,
ou se tem sol e não se tem chuva!
 
Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
 
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
 
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!
 
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
 
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!
 
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.
 
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.
 
O desejo seria, portanto, um antídoto para intervir numa sociedade baseada no querer consumista. Desejar implica no sujeito admitir sua própria divisão, aceitar sua incapacidade de ter tudo. Desejar não é produzir um acúmulo de coisas, mas sim, definir o que é mais fundamental e importante. Desejar é cortar o excesso, é aceitar a perda de gozo, é escapar da mera sobreposição de bugigangas a fim de produzir singularidade e estilo.
 
Num mundo onde o imperativo categórico é que abarrotemos nossas prateleiras e que queiramos tudo, todo o tempo, utilizar a tesoura do desejo seria a verdadeira revolução.
 
* psicóloga, psicanalista, trabalhadora da Rede de Saúde Mental do SUS, blogueira, doutoranda em Educação pela UFJF

Fonte: http://cartamaior.com.br

terça-feira, 6 de outubro de 2015

A contribuição ética da psicanálise para a sociedade atual


por: Rita de Cássia de Araújo Almeida
psicanalista

Nietzche lamenta que o ocidente moderno tenha promovido a negação da natureza trágica do homem. Segundo o filósofo, a era moderna reprimiu homem trágico para dar lugar ao homem teórico: o homem centrado, senhor de si, racional e, portanto, capaz de criar um método para conhecer e controlar o mundo que o cerca. Assim se confirmaria o ideal propagado na modernidade, pela via da razão teríamos todas as respostas.

Nesse caldeirão iluminista nasce a ciência, promessa de cura para todos os nossos mal-estares, entendendo a morte, o conflito, a loucura, o fracasso, a perda, a descontinuidade, o erro, a falta, a indisciplina, e tantas outras experiências trágicas da condição humana, como estrangeiras, malditas e odiosas. E o caminho não foi diferente no nascimento da psicologia, nesse caso, a promessa seria compreender o comportamento humano e assim, nos curar daqueles comportamentos indesejados e incômodos.

Freud, no entanto, será um dos responsáveis por desbancar o ideal da psicologia científica, afirmando com sua teoria do inconsciente que, ao contrário do que o discurso cartesiano pregava, o eu não é o senhor em sua própria casa. Com essa afirmação Freud questiona a noção do homem centrado e senhor de si, e ainda, derrotando definitivamente nossas pretensões narcisistas, afirma: não há cura para o desamparo humano. Ou seja, por mais que busquemos explicações, saídas e respostas, haverá sempre um mal-estar inevitável, inexplicável e, portanto, incurável, pelo fato de nossa existência ser essencialmente frágil, castrada, desamparada. Com efeito, a tragédia, por mais que a recusemos, será sempre nossa companheira inseparável. 

E se não há cura para o desamparo humano, o que fazer com ele? O que fazer com o mal-estar da existência?

Grande parte do esforço da sociedade atual tem sido no sentido de silenciar todo e qualquer mal-estar. E essa forma de lidar com o mal-estar da existência traduz, exatamente, a diferença da intervenção da psicanálise para as demais psicoterapias, por exemplo. Enquanto essas últimas pretendem fazer calar o mal-estar, a psicanálise se propõe a escutá-lo, acolhê-lo, e fazer dele matéria prima para o processo de reinvenção do sujeito. A psicanálise, nesse sentido não compactua com intervenções normativas, pasteurizadoras e medicalizadoras, o que resulta numa ética que está mais próxima do fracasso do que de um suposto ideal de perfeição a ser perseguido. Para a psicanálise é do fracasso, desse mal-estar que não cessa, é que tiramos o barro com o qual não paramos de nos construir. 

Acredito que essa ética proposta por Freud seja fundamental para os dias de hoje, apesar de muitos já terem decretado a morte da psicanálise. Fundamental para fazer uma crítica a nossa atual sociedade, que tem se preocupado muito mais em silenciar nossos sintomas do que escutá-los. Sendo assim, a judicialização e a medicalização tem sido os modos mais usados para lidar com nossos sintomas ou lidar com nossos problemas relacionais. Afinal, se partimos do pressuposto que há um ideal, admitiremos também ter a receita para alcançá-los, e o que é melhor para nossa sociedade capitalista, tal receita pode ser comprada/vendida. Vejamos dois exemplos bem atuais:

Ideal = criança comportada e sem problemas de aprendizagem. Se criança não aprende e não se comporta, solução = medicalização = criança comportada e sem problemas de aprendizagem.

Ideal = sujeito que não usa drogas ilícitas (principalmente crack). Se sujeito usa drogas, especialmente crack, solução = judicialização (internação involuntária) = sujeito que não usa drogas ilícitas (principalmente crack).

Entretanto, se partirmos de uma ética onde não há modelos ou ideais a serem perseguidos ou copiados, intervenções desse tipo perdem sua força, pois o caminho ou a solução passa a ser aquele que cada um pode, deseja ou pretende construir e com a certeza de que, ainda sim, algum tipo de mal-estar estará sempre presente, já que ele nunca cessa.

Já com relação ao desamparo humano, é o discurso religioso que promete curá-lo. O conceito de Deus como um Pai poderoso e amoroso serve para aquietar essa sensação de desamparo. Precisamos acreditar, afinal, que alguém olha e cuida de nós. Talvez, sem isso, sucumbiríamos ao desespero generalizado. 

Mas, a psicanálise propõe uma outra saída para o nosso desamparo. Se por um lado ele não pode ser curado, erradicado, pode ser administrado em favor da coletividade, do bem-estar comum. Podemos promover a gestão do desamparo e do mal-estar por meio da nossa ligação com os outros, pelos laços sociais que somos capazes de criar, manter e fortalecer. Em última análise, para usar os termos de Freud, precisamos amar para não adoecer. 

Finalizando, se quisermos pautar nossas intervenções na ética proposta pela psicanálise devemos fazer duas perguntas, que são fundamentais: Estamos intervindo sem nos preocupar com um ideal preestabelecido? Estamos promovendo e fortalecendo os laços sociais? Se a resposta for sim para essas duas perguntas, estamos conseguindo escapar desses dois discursos que empobrecem e enfraquecem nossa sociedade: a medicalização do sofrimento humano e a judicialização das nossas relações interpessoais. 

terça-feira, 23 de junho de 2015

Todos nós poderíamos 'procurar uma rola'

A 'treta' Boechat x Malafaia diz muito sobre nossos tempos. Freud e Lacan nos ajudam a entender o sentido do que disse Boechat.

Rita Almeida

Freud funda a psicanálise a partir do mal-estar. Sua grande questão é: o que fazemos com nossos mal-estares? Lacan vai retomar o tema freudiano para dizer que nosso mal-estar é sempre o da linguagem, já que ela sempre fracassa na sua tentativa de dar conta do real. Em outras palavras, a linguagem é sempre falha, equivocada imperfeita e sempre desliza por caminhos dos quais não temos o controle. Nossos atos falhos – aquilo que dizemos sem querer dizer ou dizemos sem pensar – demonstram o quanto a linguagem escapa a qualquer controle racional. A linguagem denuncia o tempo todo nossa falha, nossa divisão e faz emergir o inconsciente. Quer dizer, por mais que relutemos em admitir, o inconsciente nos atravessa o tempo todo, ele fala por nós e a revelia de nós, jogando por terra nossa pretensão de ser um in-divíduo (um ser sem divisão). Para usar as palavras de Freud: o eu não é o senhor da nossa casa.
 
Feito este preambulo gostaria de falar sobre o que vou chamar de moda do politicamente correto, um dos modos de tentar dar conta desse mal-estar presente na linguagem. Quando o inconsciente fala, evidenciando nosso equívoco e nossa divisão, a onda politicamente correta vai tentar fazer UM reparando a falha. A tentativa é criar um modo correto, verdadeiro ou universal de melhor dizer alguma coisa, com o objetivo de evitar que o inconsciente apareça e denuncie aquilo que não queremos admitir: o fracasso da linguagem em dar conta do real.
 
O filme Minority Report dirigido por Spielberg, que já se tornou um clássico, é magnífico para retratar esta forma contemporânea que inventamos para lidar com nossos mal-estares. Obviamente que de uma forma mais radical e drástica, a proposta contida no filme é a mesma perseguida pela polícia politicamente correta, a de que seja possível lidar com o erro inventando um modo de evitar que ele aconteça. O filme se passa num futuro próximo no qual seria possível prever e evitar um assassinato antes que ele se consuma. O paradoxo é que o sujeito pode ser condenado por um crime que jamais cometeu, porque foi impedido de fazê-lo por uma divisão policial chamada pré-crime. Entretanto, a suposta infalibilidade do sistema autorizaria a condenação do sujeito pela certeza de que ele irá cometê-lo adiante. Resumindo, o sujeito não é condenado pelo seu ato, mas pelo seu desejo. E o filme é brilhante nesse ponto porque está corretíssimo: o que nos põe em perigo, o que nos desconcerta, que nos tira da razão é mesmo o desejo. É o desejo que nos divide e que emerge a revelia do nosso controle. O desejo é o diabo!
 
Não por acaso o lema do pré-crime é: o que nos mantém seguros também nos mantém livres. Tal como no filme nossa sociedade também acredita em tal promessa, de que encontraremos a liberdade quando pudermos nos manter seguros do fracasso, do equívoco e, sobretudo, do desejo. O mundo ideal que buscamos prevê o apagamento ou o controle total do desejo, o que é o mesmo que apagar toda a singularidade e, consequentemente, por fim às diferenças. Visualizamos num mundo de iguais o fim de todo o conflito e a resposta para todas as nossas mazelas.
 
Lacan vai dizer que o homem tenta com a linguagem produzir laço social, e a isso ele chama discurso. O discurso seria, portanto, toda a tentativa que fazemos para recobrir com a linguagem nossa falha fundamental e constitutiva. Em outras palavras, é na medida em que não somos UM (inteiro e perfeito) que precisamos nos relacionar com o OUTRO, fazendo laço, produzindo discurso. 
 
Dentre as formas discursivas trabalhadas por Lacan destacaremos a que ele chama de Discurso Universitário para explicar a moda do politicamente correto. Toda vez que, na tentativa de fazer laço, criamos normas, regras, métodos, receitas e protocolos, estamos fazendo uso do Discurso Universitário. Muito presente no discurso religioso fundamentalista, nos livros de autoajuda, na burocracia, nos preceitos morais, na educação capturada pelos métodos e na ciência dogmática, o Discurso Universitário privilegia os enunciados universais que são criados para que todos sejam tratados de maneira unificada e universalizada, não havendo lugar para as diferenças e as singularidades. O objetivo seria encontrar uma única verdade que se aplique a todos a fim de evitar o mal-estar. 
 
Esta perseguição desenfreada por um ideal de linguagem politicamente correta, livre de qualquer equívoco, é um bom exemplo do uso do Discurso Universitário, que domina muitos grupos que militam em favor das chamadas minorias. A justificativa desses grupos é que determinadas formas de uso da língua são efeito do machismo, do racismo, da homofobia ou de outro tipo de preconceito e por isso devem ser evitadas ou banidas. É óbvio que se estamos numa sociedade machista, racista, homofóbica ou preconceituosa nossa linguagem vai denunciar isso. Mas é exatamente aí que está a beleza do inconsciente. Na medida em que o desejo ali se faz presente, por mais que tentemos poli-lo com a razão, ele sempre escapa e nos denuncia. É o inconsciente que não nos impede de sermos machistas mesmo quando tentamos fazer um discurso contra o machismo, é o inconsciente que não nos impede de sermos homofóbicos mesmo quando estamos fazendo um discurso para condenar a homofobia. É isso meus caros! Não somos unívocos! 
 
Esta semana o jornalista Ricardo Boechat virou notícia ao fazer uma intervenção inflamada contra o Pastor Silas Malafaia e seu já tradicional discurso de ódio contra homossexuais. Em programa ao vivo na rádio BandNewsFM, Boechat notadamente perde a paciência com uma provocação de  Malafaia no tuíter e o aconselha a “procurar uma rola”. 
 
As manifestações na internet foram imediatas e junto com aqueles que “lavaram a alma” com o desabafo do jornalista, tivemos também os que denunciaram a própria fala de Boechat como machista e homofóbica. “Procurar uma rola” foi considerado um comentário tão equivocado quanto a postura tradicional de Malafaia para com os homossexuais. Em seguida vieram as sugestões para banirmos da linguagem comentários e xingamentos deste tipo, que seriam machistas e que provocariam e ofenderiam minorias sexuais.  
 
É neste ponto que, a meu ver, a moral politicamente correta se perde na panaceia do Discurso Universitário. Quando ela tenta, tal como no filme Minority Report, criar um modo de pre-ver e pre-venir o fracasso da linguagem. O equívoco da linguagem é efeito do inconsciente. (Lembrando que o inconsciente não é aquilo que está dentro, mas aquilo que já estava lá antes de nós, o caldo cultural onde fomos mergulhados quando nascemos). Então é ótimo quando podemos escancarar e denunciar um ato falho para dizer da nossa disjunção, dos nossos equívocos. Foi isso exatamente que Freud propôs com a invenção da psicanálise: acessar o inconsciente por meio do equívoco manifesto da nossa linguagem, que aparece nos atos falhos, nos chistes e sonhos, por exemplo. Mas ao contrário do Discurso Universitário – presente nas propostas de terapia comportamental – a psicanálise trabalha pela via do Discurso do Analista. Nesse sentido ela não se dispõe de silenciar ou adestrar o equívoco, mas fazer o sujeito trabalhar no seu processo de subjetivação a partir de seus equívocos. A proposta de Freud seria, então, escutar o equívoco e lhe atribuir valor ao invés de eliminá-lo. 
 
Já proposta do discurso politicamente correto é silenciar e adestrar os equívocos. Na tentativa de evitar o conflito que emerge nessas falhas discursivas, a proposta é apagar as diferenças fazendo com que todos se submetam a um ideal de linguagem único e universal. Diante do insuportável de conviver com o desejo na sua diversidade e singularidade, a saída proposta seria um modelo único de linguagem que nos proteja das nossas diferenças e que evite os conflitos. 
 
Sendo assim, ao invés da tão sonhada liberdade, o que o Discurso Universitário consegue é tão somente inventar regras e modelos que nos aprisionam e endurecem. E como não consegue sucesso em sua proposta que é a de adestrar o desejo, pois que isso é impossível, tal discurso consegue apenas semear o medo do conflito. Sob o jugo do Discurso Universitário temos medo de que tudo o que dissermos se volte contra nós. Resta-nos afastarmos uns dos outros ou escaparmos por uma tendência muito comum nas redes sociais que é a nos relacionar apenas com nossos iguais, com nossos guetos, com nossos partidos, com aqueles que pensam como nós. Vamos progressivamente desaprendendo a lidar com nossos atos falhos e os dos outros, desaprendemos a debater, a discutir e a experienciar o conflito, tão saudável e necessário para o nosso processo de subjetivação. E se não podemos falar a partir de nossas diferenças, nos resta atacar o outro na sua diferença, com ofensas, ameaças ou em ato. Só para exemplificar um ato extremo nesta direção, temos o famoso ataque à sede de Chalie Hebdo por adeptos do fundamentalismo islâmico e cujos atos foram justificados pela insatisfação destes com as charges de humor publicadas no jornal, que teciam críticas às religiões islâmicas. Neste caso, não faltou quem defendesse que o massacre poderia ter sido evitado se os jornalistas tivessem se esquivado do tema espinhoso da crítica ao Islã. O humor é constante alvo da polícia politicamente correta, que sempre cobra dele um limite prévio, como se fosse possível fazer humor sem provocar algum tipo de mal-estar ou mal-entendido. 
 
Por outro lado, podemos sim nos manifestar contra os mal-estares da linguagem. É óbvio que podemos destacar o equívoco na fala de alguém e fazer uma crítica, mas também precisamos estar abertos a escutar quando o outro denuncia nosso equívoco. É claro que podemos achar uma piada de mau gosto, mas também podemos acha-la engraçada e nos interrogar por que ela nos provoca o riso. É claro que podemos optar por excluir um palavrão do nosso vocabulário na medida em que tomamos consciência do seu sentido implícito. É claro que podemos travar um debate cara a cara ou virtual, sempre que nossas diferenças emergirem em nossos discursos, marcados pela singularidade dos nossos desejos. Perante os equívocos da linguagem, entendo que podemos até mesmo acionar a justiça, caso os limites legais compartilhados sejam ultrapassados, por um ou por ambas as partes. O importante é que em todas essas situações partimos do equívoco, para experimentar e elaborar o conflito, para lidar com a diferença, escutá-la, se incomodar com ela e sair de nossa zona de conforto.
 
Mas o que a polícia politicamente correta pretende é tentar evitar o equívoco e o conflito antes que ele aconteça e faz isso às custas da burocratização da linguagem, do empobrecimento dos nossos laços e da chatice generalizada. E aprisionado no Discurso Universitário o inconsciente escapa pela única via que lhe resta, a violência. Esquadrinhada pelo excesso de modelos e regras de como fazer e como dizer, nos tornamos uma sociedade extremamente careta, quadrada, chata ou violenta.
 
Existe antídoto pra isso? Acredito que sim. É a lição freudiana, que é a seguinte: Não há cura para nosso mal-estar, mas por outro lado podemos atenuá-lo por meio das nossas relações com os outros. A lição lacaniana é a mesma, mas dita de outro modo: É importante que não nos aprisionemos em um determinado discurso, a saída é sempre fazê-lo girar. No caso do Discurso Universitário a saída seria dar um passo atrás em direção ao Discurso do Analista. Assim sairíamos do campo do Universal para o campo do singular, do cada um. Dito de outro modo é fundamental considerar que possa existir uma resposta para uma única situação e que não seja uma resposta Universal para todas as situações semelhantes.
 
O caso da “treta” Boechat x Malafaia, vou propor que façamos tal giro discursivo para escapar das concepções universais do que significaria “procurar uma rola” e enxerga-la no seu componente singular. Em se tratando do Malafaia e do discurso de ódio que ele representa e reproduz “procurar uma rola” poderia, sim, lhe fazer um bem enorme. “Procurar uma rola” neste caso em particular, significaria fazer com que o referido pastor se enverede para além de si mesmo, a fim de fazer laço e se permitir ser afetado pelo outro. Afinal, para “procurar rola” para além de si mesmo, é necessário admitir que não se tenha, e ninguém melhor para fazer laço do que aquele que encara sua própria castração, sua limitação. Porque quem aceita sua própria castração aceita a do outro também. 
 
Por fim, oxalá todos nós nos abríssemos para “procurar uma rola” nas nossas relações com os outros ao invés de achar que a possuímos ou que podemos compra-la e fazer uma prótese! Nesses termos, repito o conselho de Boechat: - Malafaia, meu caro, vá “procurar uma rola”! Isso faria muito bem a você assim como pode fazer bem a qualquer um de nós.


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Sobre macumbas, marchas, santos, anéis e muros e sobre a força dos símbolos


por Rita de Cássia de Araújo Almeida
psicanalista


Dias atrás ouvi a explicação de um militante do movimento negro - e, diga-se de passagem, uma belíssima explicação – sobre o sentido original das oferendas que as religiões afro-brasileiras utilizam em seus rituais, as que vulgarmente chamamos demacumbas. Ele explicou que, na época da escravidão, muitos negros fugiam para o mato na tentativa de se libertarem do jugo dos seus senhores e, antes de conseguirem fugir para algum Quilombo, ficavam próximos às fazendas, escondidos no meio da mata por dias e até semanas. As mulheres negras, na tentativa de auxiliar esses fugitivos a se manterem vivos até que pudessem partir definitivamente, deixavam tais oferendas pelas margens do caminho ou em locais combinados previamente (em baixo de um cruzeiro, numa encruzilhada, em baixo de uma árvore), oferendas que não eram nada mais do que comida e bebida preparadas para saciar a fome e a sede dos seus entes queridos. No entanto, para disfarçar sua atitude, diziam que os quitutes eram oferendas para os Santos ou Orixás, inventavam rituais e acendiam velas, um modo de sinalizar o local do alimento, especialmente à noite. E por meio dessa estratégia elas sabiam também, se os fugitivos já tinham seguido caminho ou se ainda estavam por ali, bastava observar no dia seguinte como estava o alimento que tinham deixado. O fato é que o que, inicialmente, foi uma estratégia de resistência dos negros escravizados, acabou sendo incorporado pelas religiões afro-brasileiras como ritual.

Eu nunca tinha ouvido essa história e achei de uma poesia infinita. Antes de tal explicação as macumbas não faziam nenhum sentido para mim, não continham nenhum significado, a não ser o de saber que eram significativas para a religião de alguns, o que sempre me impediu de ser desrespeitosa ou intolerante com elas. Mas agora, eu vejo as macumbas de um modo completamente novo. Passei a vê-las com grande respeito e até com reverência, porque agora elas me remetem à sabedoria e ao poder de invenção e resistência dos negros escravizados. As macumbas fazem todo o sentido para mim agora. 

E é assim que os símbolos funcionam para nós, humanos. Objetos, palavras, cores, músicas, letras, desenhos, ou seja, qualquer coisa, acrescida de um significado cultural compartilhado, pode se tornar um símbolo para um determinado grupo de pessoas. 

A psicanálise entende que o homem, uma vez atravessado pelo inconsciente – que é a linguagem ou o corpo social que se inscreve em nós à revelia de nós mesmos – nunca mais poderá ter acesso à coisa em si; a das ding, para usar o termo freudiano, ou ao real, para usar um termo lacaniano. Ou seja, para nós, seres falantes, a coisa em si nunca poderá ser apreendida, o real nunca poderá ser acessado na medida em que estará sempre configurado pelo sentido e significado que damos a ele. 

Fiz essa introdução para tratar do tema que dividiu opiniões na última semana: a quebra e manipulação de imagens de santos católicos por algumas militantes da Marcha das Vadias. Chamou minha atenção a tentativa de alguns em reduzir o peso do impacto que o ato causou em muitas pessoas, buscando descolar das imagens a simbologia que lhes é inerente. O argumento utilizado era que se tratava apenas de pedaços de cerâmica e que, em um local não sacralizado – a rua – perderiam seu significado religioso. Obviamente que, dentro da perspectiva que adotamos aqui, esse argumento carece de fundamento, até porque, se as manifestantes se dispuseram a realizar aquela performance com as imagens, é exatamente por saberem o simbolismo e o sentido que elas carregam. Caso fossem pedaços de cerâmica, o ato delas também não teria sentido algum. 

Quem assistiu a queda do Muro de Berlim na década de 80, não duvida do impacto simbólico que foi ver centenas de alemães quebrando aqueles tijolos, simplesmente porque, todos sabíamos que não eram apenas tijolos que estavam sendo quebrados. Foi pelo mesmo motivo que as Torres Gêmeas do World Trade Center foram escolhidas para ser alvo dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, porque eram o símbolo do poderio econômico americano. Em todo mundo, são comuns manifestações em que se queimam bandeiras, que podem ser de países, partidos ou simplesmente de times de futebol. E as mulheres também já queimaram sutiãs, num ato simbólico contra a repressão feminina. Ou seja, a destruição ou profanação de símbolos sempre foi, e é, muito utilizada para desconstruir, questionar, protestar, demonstrar insatisfação e rebeldia, podemos citar um zilhão de exemplos ao longo da história, e não há dúvidas de que tais atos cumprem sua função que também nunca é real, mas sobretudo simbólica. 

Num outro sentido de desconstrução de símbolos, nesse caso de uma forma, digamos, pacífica, está a postura do Papa Francisco e que assistimos de perto, também na última semana. Sem entrar no mérito da intenção do Papa, não pretende ser destituído de sentido que o líder máximo da Igreja Católica rejeite a cadeira, o manto, as jóias, os sapatos, o tapete vermelho, o carro, a segurança, e todos os aparatos que estavam associados ao status, poderio e riqueza da Igreja e do Vaticano. Por mais que possamos duvidar das reais mudanças que possam ocorrer a partir disso, não dá pra negar a força desse ato simbólico e da sua repercussão. 

Sendo assim, o que pretendo dizer é que da mesma maneira que os símbolos são criados, inventados e construídos, também podem – e invariavelmente até devem – ser quebrados, desinventados e destruídos. Então, a meu ver, nossa rejeição ou indignação quando se quebra um símbolo não deveria ser moral, mas estética. Ou seja, o problema não é que se quebrem certos símbolos, mas como isso feito e por quem. 

Por exemplo, imaginemos que o Wold Trade Center não tivesse sido destruído em 2001 e que em 2008 os milhares de americanos, vítimas da chamada bolha imobiliária, que tiveram suas casas hipotecadas tomadas pelos bancos, decidissem invadir o coração financeiro daquele país, ocupá-lo e quebrá-lo, assim como fizeram os franceses na “Tomada da Bastilha” no século XVIII. Obviamente que, esteticamente, esse ato teria um sentido totalmente diverso do que teve os atentados de 11 de setembro. Nesse caso, teria o mesmo sentido estético que teve a derrubada do Muro de Berlim, este porque foi feito por alemães e aquele porque foi feito por americanos. Do mesmo modo, a recusa dos símbolos tradicionais do Papa só tem valor estético porque são feitos por ele mesmo, estética que se perderia caso tais símbolos fossem roubados ou vandalizados por manifestantes de outra religião A queima de sutiãs pelas feministas da década de 60 foi um ato político belíssimo, porque tratava-se de um apetrecho feminino, queimado por mulheres. 

Resumindo, entendo que são belos, mesmo os mais violentos atos de destruição de símbolos, desde que aconteçam de dentro para fora e não pela via da intervenção de outrem. Se conseguirmos nos livrar de moralismos tolos, entenderemos a beleza da nudez das mulheres na Marcha das Vadias com seus corpos cheios de inscrições, afinal são mulheres desnudando e escrevendo em seus próprios corpos, estética que se perderia se por acaso se tratasse mulheres obrigadas por outrem a andarem pelas ruas, nuas e pintadas. Sendo assim, caso um dia os católicos desejem questionar a função dos Santos dentro da sua fé religiosa e num ato de rebeldia façam uma procissão em que imagens sejam quebradas e profanadas, teremos um outro padrão estético de violência simbólica. No entanto, a performance das ativistas com os símbolos católicos foi, para mim, um desastre estético. Tão feio quanto o desempenho teatral daquele pastor que chutou a Santa num programa de TV há alguns anos atrás. Tão feia quanto a invasão de Terreiros de Candomblé por alguns evangélicos em Olinda, no ano passado. 

Então, é importante, sim, que nós quebremos e queimemos nossos próprios símbolos e com eles os paradigmas e as verdades que precisem ser superadas a fim de fazermos desse mundo um lugar melhor para vivermos. Mas profanar e destruir símbolos alheios, ainda que se cumpra uma função de rebeldia, é de um mau-gosto colossal. E no meu entendimento, todo ato político que perde sua beleza estética perde com ela, muito de sua potência revolucionária. 

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Eu não quero mais do mesmo

Por 

Em tempo de levantar bandeiras, peço licença para levantar as minhas. 

Eu não quero mais automóveis, viadutos, estacionamentos, avenidas, sinais de trânsito, pontes ou anéis rodoviários. Eu quero uma cidade que privilegie os caminhantes e os ciclistas, os corredores de rua, os cadeirantes, os deficientes visuais e os que passeiam com seus animais. Quero uma rua tão humanizada que o termo “morador de rua” perca totalmente seu sentido pejorativo. 

Eu não quero mais empresas, indústrias, empregos, agências ou mais vagas em concurso público. Eu quero um mundo onde possamos trabalhar menos, para dedicarmos ao ócio, à contemplação, às artes e aos nossos filhos e livros.

Eu não quero mais hospitais, mais métodos terapêuticos, mais especialistas, mais modalidades de exames, mais planos de saúde e técnicas cirúrgicas. Eu quero um mundo onde a gente adoeça menos, se contamine menos, se estresse menos, se desgaste menos, se acidente menos. Um mundo no qual tenhamos tempo suficiente para nossos afetos e nossos jardins.

Eu não quero mais médicos, professores, advogados, burocratas, psicanalistas, jornalistas, comerciantes, policiais ou motoristas de caminhão. Eu quero é gente. Gente que cante e dance, gente que chore, que acolha, que acaricie os gatos, gente que se indigne e que sonhe. 

Eu não quero mais velocidade de conexão, mais sites na internet, mais minutos para falar no celular ou mais “largura de banda”. Eu quero encontros, abraços, conversas na calçada, tardes na praça, almoços em família, piqueniques no bosque, viagens sem pressa e papos de botequim.

Eu não quero mais renda, mais salário, mais oportunidades financeiras, mais PIB, mais linhas de financiamento, mais limite no cartão de crédito ou mais crescimento econômico. Eu quero é um mundo onde o dinheiro seja cada vez menos importante pra gente se sentir feliz. 

Eu não quero mais hidrelétricas, mais arranha-céus, mais antenas de telefonia, mais shoppings centers e condomínios. Eu quero que a água, os rios e as árvores retomem para nós a importância que tinham para os primeiros habitantes dessa terra; os povos indígenas.

Eu não quero mais tecnologia, mais produção científica, mais obras monumentais, mais eventos espetaculares, mais programa espacial. Eu quero é poesia, arte, futebol de várzea, jabuticaba chupada no pé e entardeceres diante do mar.

Eu não quero mais igrejas, mais templos religiosos, mais padres ou pastores. Eu não quero mais dogmas ou livros de auto-ajuda. Eu quero um mundo que apenas entenda que o amor é a força mais poderosa do Universo. 

Eu não quero mais canais de TV, mais variedades de sabor de pizza, mais modelos de celular, mais grifes de roupas, mais drogas ou remédios, mais conteúdo no jornal, mais cursos de pós-graduação, mais marcas de tênis, mais cores de esmalte ou técnicas de embelezamento. Eu quero viver a experiência da simplicidade e do contentamento. 

Nosso mundo tem caminhado desesperadamente na direção desse “querer sempre mais”. Desejamos mais direitos, oportunidades e espaços, tal qual desejamos objetos para consumir. E do excesso deste “mais” há um resto produzido, um lixo, que por mais que queiramos, não poderemos reciclar totalmente. Com esse modo de vida estamos alterando perigosamente nosso ecossistema, afundando severamente nas desigualdades sociais e produzindo injustiça e violência. 

Através dos movimentos de massa que se espalham pelo mundo atual – talvez não por acaso chamados de Primaveras – estamos tendo a oportunidade de também fazermos uma escolha, fundamental para a sobrevivência desse nosso planeta e seus habitantes. Precisamos urgentemente nos fazer a seguinte pergunta: Vamos continuar querendo mais? 

Eu já fiz minha escolha, e sei que muitos também fizeram. Portanto, na minha bandeira está escrito: EU NÃO QUERO MAIS DO MESMO. Eu não quero mais desse mesmo mundo, quero outro mundo. E essa seria a verdadeira revolução para os nossos tempos.

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