"Já choramos muito, muitos se perderam no caminho. Mesmo assim, não custa inventar uma nova canção que venha nos trazer sol de primavera... Quando entrar setembro..." (Beto Guedes)
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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Ódio à inteligência: sobre o anti-intelectualismo

Marcia Tiburi e Rubens Casara

Os preconceitos não são inúteis. Eles tem uma função importantíssima na economia psíquica do preconceituoso. Sem os preconceitos, a vida do preconceituoso seria insuportável. Os preconceitos servem na prática para favorecer uns e desfavorecer outros, para confirmar certezas incontrastáveis, manter a ordem e descontextualizar os fenômenos. São parte fundamental dos jogos de dominação e de poder, servem para mistificar, para manipular, mas servem sobretudo para sustentar um ideal falso na pessoa do preconceituoso, ideal acerca de si mesmo, um ideal de “superioridade”, sem o qual os preconceitos seriam eliminados porque perderiam, aí sim, a sua função fundante.
Ainda que sejam psicológicos e não lógicos, daí a aparência de irracionalidade, os preconceitos funcionam a partir de uma lógica binária, bem simples, uma espécie de “lógica da identidade”, mas em um sentido muito elementar, a lógica da medida que reduz tudo, seja a vida, as culturas, as sociedades, as pessoas, ao parâmetro “superior-inferior”. Preconceitos não funcionam fora de jogos de linguagem que são jogos psíquicos, que produzem algum tipo de compensação psíquica.
Vivemos tempos de descompensação emocional profunda, em uma espécie de vazio afetivo (junto com um vazio do pensamento e um vazio da ação que se resolve em consumismo acrítico tanto de ideias quanto de mercadorias). Nesses tempos, a oferta de preconceitos se torna imensa. No sistema de preconceitos, o objeto do preconceito varia, conforme uma estranha oferta: se há muitos judeus, pode-se dirigir o ódio, que é o afeto básico do preconceito, contra eles. Se há mulheres, homossexuais, negros, indígenas, lésbicas ou travestis, o ódio será lançado sobre eles, conforme haja oportunidade. Verdade que o ódio é sempre dirigido àquele que ameaça, ou seja, no fundo do ódio há muito medo. O preconceituoso é, na verdade, em um sentido um pouco mais profundo, alguém que tem muito medo, mas em vez de enfrentar seu medo com coragem, ele usa a covardia, justamente porque é impotente para enfrentar seu próprio medo.
O preconceituoso é, basicamente, um covarde.

Henry Darger

Tendo isso em vista, é importante falar de um preconceito que está em voga nesse momento: o anti-intelectualismo. Há um ódio que se dirige atualmente à inteligência, ao conhecimento, à ciência, ao esclarecimento, ao discernimento. Ao mesmo tempo, esse ódio é velado, pois o lugar do saber é um lugar de poder que é interessante para muitos. Se podemos falar em “coronelismo intelectual” como um uso elitista do conhecimento, e de “ignorância populista”, como um uso elitista da ignorância, como duas formas de exercer o poder manipulando o campo do saber, podemos falar também de um ódio à inteligência, do seu apagamento.
Há, dividindo espaço com opressões próprias ao campo do saber, um estranho ódio ao saber em sua forma crítica e desconstrutiva. Um ódio que se relaciona com a ameaça libertária do saber, um saber capaz de desmistificar, de contrastar certezas e de desvelar a ignorância que serve de base para todos os preconceitos. O pensamento e a ousadia intelectual tornaram-se insuportáveis para muitas pessoas chegando a um nível institucional e, não raro, acabam excluídos ou mesmo criminalizados.
Diversos exemplos de anti-intelectualismo podem ser observados na sociedade brasileira. Desde a caricata presença do ator Alexandre Frota (menos pelo que ele é, mas sobretudo pelo que ele representa) como formulador de políticas públicas do Ministério da Educação ao projeto repleto de ideologia (e mais precisamente: da ideologia, de viés autoritário, da “negação do saber”) da “Escola sem partido”. Do silêncio em torno da exclusão de disciplinas (filosofia, sociologia, artes, etc.) do ensino médio (MP 746) à expressiva votação de candidatos que apostam no uso da força, em detrimento do conhecimento, como resposta aos mais variados problemas sociais. Do descaso com a educação (consagrado na PEC 241) ao tratamento conferido aos professores em todo Brasil (na cidade do Rio de Janeiro, uma das mais constantes críticas direcionadas ao candidato Marcelo Freixo, que disputa o segundo turno das eleições municipais contra o pastor licenciado da IURD Marcelo Crivella, é de que por ser professor não falaria “a linguagem do povo”).
O alto índice de abstenções, votos nulos e brancos (bem como a expressiva votação de políticos que se apresentavam como não-políticos) também é um sintoma do anti-intelectualismo, na medida em que o eleitor identifica o político como aquele que detém o “saber político”, um “saber” que foi demonizado pelos meios de comunicação de massa.
No sistema de justiça ocorre o mesmo. O bom juiz é aquele que julga da forma que o povo desinformado julgaria, mesmo que para isso seja necessário ignorar a doutrina, as leis e a própria Constituição da República. Por outro lado, não são raros os casos de juízes e promotores de justiça que respondem a procedimentos administrativos acusados de decidir contra o senso comum propagado pelos meios de comunicação de massa.
Em meio à onda anti-intelectualista, não causa surpresa que a lógica do pensamento passa a trabalhar com categorias pré-modernas como o “messianismo” e a “peste”. O messianismo identifica-se com a construção de heróis e salvadores da pátria (seres diferenciados, bravos e destemidos, mas que não são necessariamente cultos ou inteligentes, nem corajosos, mas usam uma performance política em que gritar e esbravejar provocam efeitos populistas). A lógica da peste identifica cada um dos problemas brasileiros como um mal indeterminado, em sua extensão, em suas formas e em suas causas, mas tangível e mortal, contra o qual só Deus ou pessoas iluminadas podem resolver. Só há “messianismo” e “peste”, fenômenos típicos de um conservadorismos carente de reflexão, onde desaparece o saber e a educação.
A barbárie está em curso

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Covardia consensual – sobre a energia psicopolítica que rege a nossa época

Publicado na coluna ContraCorrentes do Justificando na semana passada.


Por Marcia Tiburi e Rubens Casara



Cada época possui um “pathos”, uma espécie de “energia psíquica” que vem à tona nas obras de arte, nos livros, na cultura como um todo. Essa energia psíquica também está nos gestos e na fala das pessoas, no modo como elas se expressam. Mesmo quando não são artistas ou intelectuais, quando são pessoas comuns exercendo suas atividades diárias, todos os cidadãos estão envolvidos pelo miasma do pathos de sua época.

Antes de seguirmos, é importante saber que com o termo pathos não devemos nos referir a um sentimento só, a um afeto único. Pathos quer dizer mais um modo de sentir que revela algo de uma época. Talvez seus anseios, talvez sua agonia. Não apenas o desejo, mas inclusive ele. A palavra miasma nos ajuda, porque ela remete a algo físico, um cheiro apodrecido, mas também a algo metafísico, como as sombras de um fantasma. Talvez também possamos traduzir pathos por clima, por atmosfera, assim, todo mundo entende fácil. Mas tem algo mais nessa ideia.

Muitos filósofos vem falando há tempos de “afetos autoritários”, no entanto, quando falamos em “energia psíquica”, talvez fique claro que, no conjunto dos afetos, talvez haja uma base, um lastro, um afeto ou sentimento que faz o papel de fio a alinhar todos os demais. Um afeto que dá o tom. Nessa época em que manipulam-se os afetos, em que os meios de produção dos afetos estão nas mãos das instituições (a mídia, a justiça, a religião) que dominam a ordem do discurso e das práticas em geral, tudo o que se pensa, tudo o que se sente e se faz passa por mediações invisíveis. Não somos donos do que sentimos. Podemos estar sentindo ódio, por exemplo, e ele não ser nosso. Isso quer dizer que os afetos não são naturais, quer dizer que são inventados e somos contagiados por eles. Depois do contágio, a manipulação fica fácil. Qualquer vendedor, qualquer publicitário, qualquer autor de novela, qualquer pastor, qualquer político e quem mais queira mistificar com o povo, sabe disso.

O afeto que alinha ocultamente todos os demais e que vem regendo nosso tempo é a covardia. Sendo um afeto, não sabemos se ele é causa ou consequência do que vivemos, mas ele está aí. Podíamos dizer que a covardia é um efeito do medo, assim como é o ódio, mas não seria suficiente. A covardia não apenas faz par com o medo e, poderia até parecer um vício se ainda pudéssemos opô-lo à virtude da coragem, mas ela se tornou algo mais. Assim como o ódio, assim como o medo, não sabemos se ela é causa ou consequência, mas ela tomou a dimensão do pathos de uma época e, podemos dizer que, de um modo muito interessante, ela fede como um miasma.


A covardia que nos importa não é aquela que se reduz à ilusão do indivíduo tomado pelo medo. É verdade que o medo faz parte da vida e quando o enfrentamos temos a coragem. E poderíamos também dizer, como alguém que segue uma definição de dicionário, que ao não enfrentar o medo, temos a covardia. De fato, se a questão fosse apenas individual nosso problema seria pequeno e solucionável ao nível das individualidades questionáveis, das terapias, ou dos exorcismos (cada vez mais vendidos aos pobres nas religiões neoliberais, elas mesmas muito covardes).


 

“Chlorosis (Love sick),” 1994 – Marlene Dumas.


Mas a covardia se tornou bem mais que isso. Hoje ela é um pathos com frequência visível nas falas humanas. A quantidade de pessoas que dizem às outras “como você é corajosa”, “como vc é corajoso” quando essas pessoas assim denominadas não fizeram nada além de defender outras pessoas, causas justas, ideias e até mesmo a simples constituição, quando essas pessoas não fizeram nada além de realizar seu próprio dever, nos faz pensar que a covardia é, entre nós, uma acordo tácito, prévio e que, os corajosos se tornaram “exceções”. Em um mundo de covardes por prepotência, ser razoável é uma coragem incomum e elogiável.

Em épocas autoritárias política e moralmente, torna-se normal que os que não se submetem à regra da falta de regras, à regra do desrespeito aos valores da dignidade, da verdade, da justiça, sejam tratados como inimigos do sistema, em uma palavra, como bruxas que devem ser perseguidas. Cada ato corajoso humilha o covarde e a covardia elevada a patamar ético-político, institucional, e induz também ao ódio.

A covardia se tornou um estranho calibrador social. É de bom tom não envolver-se. É de bom tom submeter-se à tendência dominante. Nos tempos do estado de exceção, em que o direito está suspenso, a tendência dominante gerou esse novo consenso, o da covardia assumido por cada um que não dá a cara a tapa, e por fim, como em nossos dias, acredita que seu voto nulo ou branco é melhor do que política. Os covardes são corpos e mentes docilizados, mas que fingem uma certa força, pode ser a da aparência, do dinheiro, da toga, do carteiraço, da arma apontada para fora do carro, do fiu-fiu, do texto jornalístico falso, da maledicência pelas costas, pode ser a força da ignorância para mistificar com o povo, pode ser pedir voto a fiéis. O covarde pode ser um cara-de-pau bem comunzinho, pode ser um pastor diabólico, pode ser um homem que bate em mulher, pode ser alguém que vive de aparências.

O covarde é outro nome para o otário e o burro, mas com um grau de consciência um pouco maior. Em nossa época covarde anda próximo do cínico, mas ainda pode ser salvo dependendo da grau de desenvolvimento de sua covardia.

Nas péssimas condições da cruz, Jesus Cristo pedia que Deus os perdoasse, pois eram ignorantes quanto ao que estavam fazendo. Também Deus teve seu momento de covardia aos olhos de Cristo. Também Deus abandonou o barco e deixou que Cristo fosse até o fim, também ele foi vítima de um pathos (ora o que é a paixão…).

Deus consentiu na covardia generalizada


http://revistacult.uol.com.br



sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Os três vazios – Sobre como fomos esvaziados e lavados para fazer escoar a angústia consumista


Márcia Tiburi



Podemos caracterizar nossa época a partir de três grandes vazios:
1 – O primeiro deles é o vazio do pensamento, tal como o denominou Hannah Arendt. A característica desse vazio é a ausência de reflexão, em palavras simples, de questionamento. Como é impossível viver sem pensamento, o uso de ideias prontas se torna a cada dia mais necessário e vemos ideias se transformarem em mercadorias para facilitar a circulação. Não são apenas as ideias que viram mercadorias. As mercadorias também vem substituir ideias. Elas se “consubstanciam” em ideias e fazem a sua vez. O império do design de nosso tempo, tem a ver com isso. Cada vez mais gostamos de coisas nas quais se guarda uma ideia. Hoje em dia vende-se autenticidade e prosperidade como um dia se vendeu felicidade, liberdade e imortalidade. A ideia é melhor vendida por meio de conceitos que podemos possuir ou, pelo menos, queremos possuir. O design garante isso. O que antigamente se chamava de “arte pela arte”, agora se chama de “estética pela estética”.
Com isso quero dizer que o mundo da aparência substituiu o da essência e isso atingiu até mesmo o pensamento. A inteligência se tornou algo da ordem da aparência, uma moda. Por isso mesmo, a ignorância populista também faz muito sucesso. Enquanto uns vendem aparência de inteligência, outros vendem aparência de ignorância. Se há realmente inteligência ou ignorância, não é bem a questão. Ganham os que sabem administrar essas aparências para a mistificação das massas. A indústria cultural também é do design. E o design também é da inteligência e da ignorância.
2 – O segundo vazio parece ainda mais profundo, até porque, tradicionalmente tem relação com o território do que chamamos de sensibilidade que está revestido de mistérios. Nesse campo, entra em jogo o vazio da emoção. A impressão de que vivemos em uma sociedade anestesiada, na qual as pessoas são incapazes de sentir emoções, não é nova. Alguns já falaram em culto da emoção, em sociedade excitada, em sociedade fissurada. Buscamos de modo ensandecido uma emoção qualquer. Pagamos caro. Da alegria à tristeza, queremos que a religião, o sexo, a alimentação, os filmes, as drogas, os esportes radicais, tudo nos provoque algum tipo de êxtase. A emoção virou mercadoria e o que não emociona não vale a pena. Alegrias suaves e tristezas leves não interessam. Tudo tem que ser extasiante. As mercadorias aparecem com a promessa de garantir esse êxtase. Das roupas de marca ao turismo, tudo tem que ser intenso, cinematográfico, transcendental, radical, impressionante. É o império da emoção contra a chateação, da excitação contra o tédio, da rapidez contra a calma, da festa contra a tranquilidade. A questão que está em jogo é a do esvaziamento afetivo. Se usarmos um clichê, diremos que nos tornamos cada vez mais frios, cada vez mais robotizados. Há uma verdade nisso: quer dizer que perdemos nosso calor humano, nosso calor animal, o que nos confirma como seres vivos. Ficamos cada vez mais vitimados pelo universo da plasticidade. O império do design se instaura aí. Da plasticidade exterior ao plástico (que consumimos fisiologicamente no uso de uma garrafa de água), não há muita diferença.
3 – Por fim, podemos falar de um vazio da ação. O esvaziamento da política não foi construído de uma hora para outra. Os donos do poder, fossem reis, presidentes, militares ou executivos, todos projetaram essa extirpação que é vivida pelo abandono da política. Arrancaram a política das entranhas existenciais do ser humano por meio di exercício do pensamento reflexivo que dependia da linguagem e do afeto. No lugar, é posto o “chip fascista” que permite repetir a prepotência e a maldade. Esse chip faz o maior sucesso. Ele ajuda a deixar de pensar no outro, na morte, na dor de viver, na complexidade da vida urbana, na falta de ética. Ele garante o vazio da ação, por meio do qual o povo – que somos todos nós – não deve se permitir ser político, não deve pensar, nem sentir politicamente, não deve participar. Em uma palavra, não deve agir. A ação é uma questão de ética e de política, mas o capitalismo, ou muito mais o corporativismo capitalista, não quer a ação, por isso, estimula o consumo que é justamente o vazio da ação.
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Jake & Dinos Chapman, “Inferno sessenta e cinco milhões de anos a.C.”, 2004

Hoje, quando pensamos em nossos políticos bonecos de vodu, na economia vodu do neoliberalismo enfeitiçante que cai sobre nós todos, percebemos que se trata disso: de um enfeitiçamento produzido por um processo de esvaziamento que resulta em mais esvaziamento. Vazios, aceitamos que nos vendam pensamentos, emoções e ações prontas e artificiais. Nada é de graça, embora tudo pareça tão fácil na era do cartão de crédito. Tudo deve parecer alguma outra coisa. Estamos vivendo uma grande ficção que deve fazer tudo parecer verdade. Mas nada precisa ser de verdade.
Podemos dizer que fomos perfurados e escoados – em nossas subjetividades – em um processo social e histórico que se intensifica agora no estágio atual da democracia e do neoliberalismo. Fomos “lavados” animicamente, subjetivamente. Pensar, sentir ou agir livremente estão fora de questão porque não há nada mais por dentro, o universo interior tornou-se um grande deserto.
Televisão, drogas, xópincenters, internet, igrejas são mercados, são mercadorias. Oferecem tampões para o grande vazio que é o legado do capitalismo entre nós. Capitalismo como evasão, como escoamento de si. Furo por onde corre qualquer angústia produzida em seu próprio sistema. A angústia do consumo que nos faz produzir e consumir.
E tudo isso, no entanto, como em situações de enfeitiçamento, vai parecer para muitos apenas uma fantasia, ou uma metáfora…

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